quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Como ser um Revolucionário Hoje?

Por Willian Alves de Almeida*


Vivemos atualmente, na sociedade pós moderna, assim conceituada pelos docentes da Escola de Frankfurt Am Main, nesta sociedade baseada em novos valores capitalistas, e no consumo intenso aos produtos de massas alienantes, a atuação política fica para segundo plano, pois a maioria das pessoas apesar de saberem que há algo de errado no mundo ao seu redor, são coagidas a “deixar por isso mesmo” por conta de fatores que iremos citar ao longo desse texto.

Esses fatores como foi explicado por um “Frankfurtiano”, Herbert Marcusse, é baseado no controle das informações através dos meios de comunicação de massa. Os principais jornais, rádios e emissoras de TV abertas, baseiam suas programações na desinformação, procurando informar a massa popular o menos possível sobre assuntos em pauta, aumentando o tamanho de assuntos fúteis, e inserindo o ponto de vista dos proprietários dos meios de comunicação sobre os mesmos. Esse ponto de vista quase sempre é conservador.

Outro problema que é gerado pela questão da manipulação midiática é o desaparecimento da esquerda do contato com a população pobre. Se antigamente a censura era explícita, hoje os detentores do poder mantém os partidos revolucionários afastados através da lei de representividade no Congresso Nacional, que torna o espaço midiático desses partidos risíveis, o que a direita se aproveita muito bem. Além de muito sectarismo, e dificuldade em se adaptar a conjuntura mundial atual nas fileiras internas dos partidos revolucionários agravam ainda mais o quadro da Crise de Direção.

O objetivo da Liga Internacionalista da Esquerda(s) Unificadas(s), é ser um coletivo que pretende agrupar elementos desses partidos, para criar uma nova força revolucionária e em um futuro próximo preparar terreno para um grande e expressivo partido da revolução mundial. Para esse objetivo, precisamos analisar os pontos apontados por esse texto, definir um novo programa de reinvidicações populares, e elaborar um plano de militância próximo do proletariado e com uma linguagem didática e popular ao máximo.

Assim, poderemos lutar conforme a frase dita por Rosa Luxemburg:

Socialismo ou Barbárie!”



*Willian Alves de Almeida (1988 -), é Turismólogo formado pela FUNDETEC/SP, iniciará um curso de História em 2012, socialista desde 1999.


TORTURADORES ALIVIADOS: NEM MESMO AÇÕES CIVIS OS AMEAÇAM

Não sou adivinho, nem escrevo com base em  chutes, desejos pessoais ou hipóteses improváveis.

Quando aponto a meus leitores o cenário que provavelmente prevalecerá adiante, raciocino exatamente como o enxadrista que sou: de várias evoluções possíveis da situação presente, elejo a que mais se adequa à correlação de forças e às características dos grupos e indivíduos que tomarão as decisões.

Então, quem se der ao trabalho de reler os artigos sobre o Caso Battisti, verificará que as minhas principais previsões viraram realidade.

Quando alguns companheiros se desesperaram com a tendenciosidade do presidente do Supremo Tribunal Federal e do outro ultradireitista que ele escolheu para relatar o processo, sugerindo o lançamento de uma campanha pública para pressionar o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva a libertar imediatamente o escritor (o que implicaria passar por cima do STF), rechacei de imediato a proposta e recomendei aos outros líderes do movimento que manifestassem inequivocamente sua desaprovação. Deu certo.

Tendo acompanhado a trajetória de Lula desde o sindicalismo, eu tinha certeza absoluta de que ele jamais confrontaria o STF. Então, pedir o impossível nos atrapalharia na conquista do possível, seja por ensejar antipatias contra nós dentro do Governo e do PT, seja por dar a nossos inimigos a possibilidade de alegarem que temíamos a decisão do Supremo e dela estávamos tentando fugir.

Depois, com esforços titânicos, conseguimos deter a escalada de arbitrariedades de Gilmar Mendes e Cezar Peluso. Eles já haviam induzido três dos seus colegas a revogarem na prática a Lei do Refúgio, usurpando prerrogativa do Congresso Nacional; e a cassarem uma decisão legítima do ministro da Justiça, usurpando prerrogativa do Executivo.

A terceira usurpação concretizaria a infâmia: eles tentaram tornar definitiva a decisão do STF, apropriando-se também de uma prerrogativa do presidente da República, qual seja a de dar a última palavra nesses casos.

Agressão tão extrema às tradições seculares do Direito não seria tão facilmente aceita: o mais legalista dos ministros que Mendes e Peluso estavam arrastando na sua  brietzkrieg  não os acompanhou na consumação do estupro de leis e jurisprudências. Ganhamos a parada.

No mesmo dia escrevi que, tendo o STF depositado nas suas mãos o destino de Battisti, Lula jamais o entregaria aos inquisidores italianos.

Anunciada a decisão presidencial, foi também no mesmo dia que antecipei: Peluso e Mendes ainda esperneariam um pouco antes de reconhecerem a derrota, mas não havia como o Supremo renegar o que ele próprio estabelecera. Dito e feito.

Mas, claro, como revolucionário eu preferiria mil vezes que tivéssemos força política suficiente para impor a libertação imediata de Battisti, encurtando sua agonia. Infelizmente, não a tínhamos.

AS MIRAGENS E O PRÊMIO DE CONSOLAÇÃO

 Da mesma forma, o caminho para a punição dos torturadores dos anos de chumbo passava obrigatoriamente pela revogação da anistia preventiva que os déspotas concederam a si e a seus esbirros em 1979.

Quando o Governo Lula se curvou às pressões militares em 2008, posicionando-se pela manutenção da  pax  do ditador Figueiredo, intuí que a parada estava perdida e passei a conclamar os companheiros a lutarem pelo que ainda tínhamos chance de conseguir: um veredicto final do Estado brasileiro repudiando a usurpação de poder e estabelecendo a responsabilidade dos envolvidos no festival de horrores subsequente.

Tarso Genro e Paulo Vannuchi, logo após serem derrotados na refrega ministerial pela corrente encabeçada por Nelson Jobim, indicaram aos cidadãos inconformados com a capitulação do Governo o caminho dos tribunais.

Avaliei que os torturadores não corriam maiores riscos, pois nossa Justiça é tão lenta e faculta tantas manobras protelatórias que todos eles estariam mortos bem antes de a primeira sentença chegar à fase de execução.

Quanto à condenação em si, ao menos para efeito moral, dependeria do posicionamento do Governo Lula. Resolvi tudo fazer para evitar que continuasse alinhado com a impunidade, embora intimamente estivesse cético.

Quando os advogados de torturadores pediram o primeiro pronunciamento da Advocacia Geral da União, escrevi vários artigos sobre o absurdo que seria coonestar uma anistia imposta pelos vencedores aos vencidos em plena ditadura e mediante chantagem (a moeda de troca foi a libertação dos companheiros ainda presos e a permissão de volta dos exilados).

Não adiantou: a AGU passou a sempre informar aos juízes que considerava válida a anistia de 1979.

A pusilaminidade do Governo Federal e a omissão do Congresso Nacional deixaram o terceiro Poder de mãos livres para detonar definitivamente qualquer possibilidade de verdadeira justiça.

E o STF não se fez de rogado, produzindo em 2010 uma de suas decisões mais escandalosas e estapafúrdias de todos os tempos. Por ela, bastaria os nazistas terem previamente anistiado os próprios crimes para não existir tribunal de Nuremberg.

Extinta de vez a possibilidade de se responsabilizar criminalmente os torturadores --só ingênuos acalentam a esperança de que seja acatada a decisão do tribunal da OEA, não percebendo que a própria instituição da Comissão da Verdade está servindo como um prêmio de consolação neste sentido--, restaram as ações civis, por meio das quais os algozes poderiam ser declarados torturadores, ter sua pensão cortada ou pagar a conta dos prejuízos por eles causados à União, obrigada a indenizar suas vítimas.

É mais um oásis que evapora ao nos aproximarmos dele: o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (São Paulo) acaba de decidir que os militares acusados de torturar presos políticos no DOI-Codi paulista durante a ditadura não podem mais ser condenados porque seus crimes já prescreveram.

Ao julgar o caso, a 6ª Turma do TRF respaldou-se na decisão do STF de manter a validade da Lei de Anistia.

Alguém duvida de que será este também o entendimento das instâncias superiores?

Resumo da opereta: só nos resta lutarmos com todas as forças para que a Comissão da Verdade cumpra verdadeiramente seu papel, permitindo que a opinião pública e os pósteros adquiram pleno conhecimento das atrocidades do período, dos nomes de quem as cometeu e de quem as ordenou. 

Todo o resto parecia sólido, mas se desmanchou no ar.

De Gaulle pode não ter dito tal frase, mas ela continua sendo o melhor diagnóstico já feito sobre o Brasil: não é um país sério.
Camarada Japa
(HIDEMI)
O papel da imprensa na questão revolucionária:

Um grande problema a ser discutido para que se possa entender parte do processo de dominação do capital, em minha ótica, reside em se realizar uma análise que não se subestime e sobrevalorize o papel central que o poder das grandes corporações das grandes corporações do poder midiático exerce sobre o corpo social. O ponto central desse pequeno texto é o de problematizar o poderio desse setor do grande capital.

A grande falácia dessas corporações midiáticas pode ser definida em dois pontos: o discurso de imparcialidade e o de democracia na relação entre as corporações midiáticas e o telespectador. O primeiro ponto já foi bastante debatido e bem explicitado pela filósofa Marlene Chauí, as empresas de telecomunicações obedecem ao imperativo do capital, logo nada mais distante da realidade do que a efetividade dessa “imparcialidade”. O segundo ponto me faz recordar o célebre texto de Adorno e Horkheimer, A indústria cultural: O esclarecimento com forma de mistificação das massas, em linhas gerais Adorno e Horkheimer negam a existência de uma cultura popular espontânea no seio do capitalismo.

Para eles, os produtores artísticos já estão subsumidos ao capital antes mesmos dos lançamentos dessas obras, ou melhor o capital só as lança, pois esses artistas já sofreram um “processo adaptativo” no qual só aqueles artistas que se submetem aos esquemas do que seria uma boa arte para a reprodução do capital, começam ter suas obras lançadas já totalmente adaptadas ao discurso do capitalismo. O artista de antemão já se encontra absorvido aos ditames do que é bom ou ruim para o capital.

Agora, qual a ligação do nosso tema com essa parte segundo ponto acima mencionado? A veiculação das notícias passa necessariamente de antemão pelo clivo dos produtores dos telejornais, o que possibilita que somente as notícias que interessam ao capital sejam veiculadas, podendo- o que ocorre em grande parte das vezes- no falseamento da notícia com o intuito de não somente fazer uma apologética ao capital, tanto de forma positiva, como de forma negativa, como nos casos da criminalização de movimentos sociais, exemplo cabal desse fato são as notícias referentes ao MST.

Outro correlato desse segundo ponto é ausência de um feedback por parte dos telespectadores, portanto a grande massa realiza apenas o papel de receptáculo das noticias que as grandes empresas de telecomunicações desejam veicular, mais uma vez o discurso democrática é meramente formal.

Chegamos, portanto, ao cerne do nosso pequeno texto; de que forma poderemos superar esse impasse na qual as notícias só atingem a grande massa através de um processo de mediação que é realizado pelas grandes corporações midiáticas, que têm o objetivo de reproduzir o modo de produção capitalista? Seria através da popularização de veículos midiáticos alternativos como a internet? Ou eu estaria sobre estimando o papel dessas corporações na reprodução do modo de produção capitalista?

terça-feira, 29 de novembro de 2011

ESQUERDISTAS SELVAGENS DEFENDEM DITADORES SELVAGENS

A informação é do Clóvis Rossi (ver íntegra aqui):
"O relatório da comissão da ONU que investigou a violência na Síria (...) é duríssimo: diz que as forças de segurança sírias cometeram 'graves violações dos direitos humanos', o que inclui execuções sumárias, prisões arbitrárias, desaparições forçadas, torturas, violência sexual, violação dos direitos das crianças -enfim o catálogo completo a que recorrem as ditaduras mais selvagens.

Para o Brasil, não dá mais para repetir a torpe declaração emitida após visita de uma delegação do Ibas (Índia, Brasil e África do Sul) a Damasco, na qual condenaram 'a violência de todas as partes'. Equivalia a igualar vítimas e algozes.

Agora, há um relatório com a chancela de Paulo Sérgio Pinheiro, o brasileiro que preside a comissão..."
O qual, acrescento eu, é um personagem acima de qualquer suspeita de favorecer manobras imperialistas.

Foi, p. ex., indicado pela Comissão de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça para representar a sociedade civil no grupo de trabalho que preparou o anteprojeto de lei da Comissão Nacional da Verdade. Constitui exemplo inatacável de dignidade e idealismo, sempre colocando seu brilho intelectual a serviço das causas justas. Uma unanimidade, enfim.

Então, a habituais desqualificações a que recorre uma parcela da esquerda tão selvagem quanto os ditadores que apoia, neste caso não  colarão.

O que me deixa estupefato é a defesa em bloco que tais desatinados fazem dos  tiranos das Arábias.

Um Gaddafi da vida, embora não tenha chegado ao poder graças a revolução nenhuma, mas sim por meio de uma quartelada, teve lá seus rompantes antiimperalistas antes de acertar os ponteiros com os senhores do mundo (revelando grande afinidade com o que o Império tinha de pior, o fascistóide, mafioso e debochado Sílvio Berlusconi).

É algo de que ninguém jamais acusaria o  açougueiro de Damasco, Bashar al-Assad, despótico, conservador e reacionário até a medula, desde sempre.

A vergonhosa tibieza do Governo brasileiro face a uma das piores tiranias do século 21 se deve tão somente a interesses econômicos. Uma variante do  critério  de que "ele pode ser um grandíssimo fdp, mas é nosso fdp".

A esquerda não caudatária do petismo, entretanto, está desobrigada de coonestar o oportunismo governamental.

Mesmo assim, com um primarismo abissal, os esquerdistas selvagens encaram a mais do que necessária derrubada de al-Assad como uma tramóia dos países da Otan para apoderarem-se de riquezas sírias.

Ainda que assim fosse, que cabimento tem tomarmos partido em disputa na qual ninguém é antagonista do capitalismo? Se são só vilãos brigando por um butim, o que importa para nós qual vilão prevalecerá?

Mas, a própria razão de ser da esquerda é defender o povo contra os que o tiranizam e massacram. São milhares as vítimas fatais do  açougueiro de Damasco nos oito últimos meses, 256 crianças incluídas. Até a Liga Árabe vê premência em deter-se a matança.

Estarrecedores também são os casos citados no relatório de abusos sexuais contra menores, como um jovem de 15 anos violado na presença do pai.

O hipotético repúdio à Otan implica o bem real repúdio ao povo sírio e uma vergonhosa cumplicidade com a carnificina que lhe é imposta.

Está mais do que na hora de voltarmos a ter um ideário positivo, priorizando o que se afirma e não o que se nega. Direcionar-se apenas por negações, como uma bússola invertida da imprensa burguesa, nem sempre leva à posição correta e às vezes desemboca em absurdos.

Caso atual: é um completo absurdo a promiscuidade dos herdeiros de Karl Marx com um herdeiro de Vlad Dracul.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O discreto charme do neoliberalismo


Texto originalmente publicado em:
Expressão Universitária, ANO II, Nº 8 set/out 1997; p6

O discreto charme do neoliberalismo

Alexandre Lobo

Nova Era, MacDonald's, Universal do Reino Deus e a liberdade de escolher o filme preferido no Intercine .Estas são as cores da pós-modernidade. O fim do Estado ante a democracia do mercado. Há tantas opções de tênis, revistas especializadas, para vários segmentos sociais, calças que já vem rasgadas da loja, e tudo sem a presença do Estado. O indivíduo é diariamente bombardeado por uma série de opções que vão desde assistir um exorcismo à uma transa segura onde os órgãos sexuais transformam-se em plástico de um teclado. O outro toma-se espetáculo, parte de um momento descontínuo, seu riso ou seu choro já não fazem diferença , desde que se possa vê-lo no noticiário barato das seis.

0 Brasil caminha a passos largos para o desenvolvimento (blá-blá-blá que escutamos desde quando ainda não éramos nascido – em desenvolvimento já é um estado crônico). Agora, todos podem entrar no maravilhoso mundo do consumo, afinal, vivemos num país sem inflação, embora o cálculo desta desconheça juros bancários. Políticos desculpam o desemprego, afinal, faz parte do progresso, além do mais, cresce o setor terciário e informal. Se temos Unimed e aposentadoria privada, engordada por nosso farto salário, para quê leis trabalhistas? A democracia é tanta que até podemos trabalhar em casa no nosso moderno micro computador. É bom não ter horário de trabalho...

Liberdade é poder escolher entre Malboro ou Free, Coca ou Pepsi, Vectra ou Corsa, Liberdade é consumo. E o melhor, é meu ego quem consome e ele está representado pelo personagem da propaganda.. Desta forma, a democracia transforma-se na opção da compra. Não importa quem possa ou não comprar, não importa os mecanismos de distribuição de renda. Não ter dinheiro é não poder escolher. Para cursar informática ou inglês, requisito para a cidadania global, é necessário dinheiro enquanto a escola pública é sucateada e ocupada por professores ou frustados ou nunca viram um livro que não fosse do Sidney Sheldon.

Assim excluímos e criamos uma massa que não é consumidora como manda a nova forma de democracia.
Graças ao mercado, possuir dinheiro é possuir os mecanismos de reproduzi-lo, investindo em equipamentos e cursos. Ou seja, mantenho meu patrimônio consumindo, consumir torna-se imperativo categórico. Marx já havia mostrado que dinheiro é fetiche, esconde relações sociais. A democracia do mercado esconde estas relações que criam massas que já não podem mais ser consideradas nem mesmo como exército de reserva. Cresce o desemprego em todo o mundo enquanto diminuem os gastos estatais com o social. O homem torna-se também um fetiche ao transforma-se em Homem-espetáculo.

Tudo é uma questão de dinheiro, de tê-lo ou não, enquanto o sistema legitima-se no neo-liberalismo. (E o que há de neo?). Nosso egoísmo é reforçado pela nossa capacidade de compra, ato individual e plenamente democrático, perpetuando a criação da miséria. Quem nasce do outro lado do muro, dos que não possuem dinheiro, não é cidadão, nem mesmo um semelhante, mas apenas um objeto para a câmera, que lhe invade a intimidade, de algum documentário para a TV. E o que importa se eu posso desligar o aparelho?

sábado, 19 de novembro de 2011


Pra não dizer que não falei de classes



Pra não dizer que não falei de classes


Prof. Me. Alexandre Lobo


Para muitas pretensas teorias importadas da Europa, não há mais sentido pensar em sociedades divididas em classes sociais, a sociedade não é mais a mesma desde Marx, o mundo do trabalho cedeu lugar ao mundo da vida. A figura do Tio Patinhas como o exemplo clássico capitalista parece ser coisa de achado arqueológico. Para as instâncias do saber competente, fazendo eco aos meios de comunicação, o interesse nas questões do conflito entre capital e trabalho desloca-se para questões de gênero, etnias e tribos urbanóides, fazendo com que os interesses das empresas transnacionais pareçam filantrópicos.


Certamente a sociedade não é mais a mesma, ela transformou-se, apareceram novas tecnologias, diversas formas de discriminação social foram percebidas, mas nem por isso a lógica do sistema em que vivemos deixou de ser a acumulação de capitais, embora hoje o capital já não possa mais ser visto como material somente. Informação, reconhecimento e relações sociais são meios de manter e ampliar recursos num mundo competitivo.


Não se pode menosprezar a importância das questões de gênero, étnicas e religiosas para compreensão da vida contemporânea. Desigualdade entre sexos e etnias perpassa as classes e os novos movimentos sociais dizem respeito a todos, o poder ainda é macho e branco, o feminino encontra-se subordinado ao masculino tanto na burguesia quanto no proletariado. Entretanto, o acesso ao poder, poder de ir e vir, de comer regularmente, estudar e construir um futuro, entre tantas outras possibilidades de poder, não é apenas uma questão de cor ou sexo, mas de distribuição social de recursos. Não se pode ter uma visão romântica do feminino ou da negritude como se estes fossem portadores de um projeto social estruturalmente diferente do capitalismo. Possivelmente, todas as deputadas ditas feministas concordariam em questões sobre o aborto, emprego, chefia de família, mas, certamente não haveria tanto consenso quanto a Reforma Agrária e distribuição de renda. Parece-me que as questões dos novos movimentos sociais não classistas estão mais próximas da superestrutura, da ideologia, da mentalidade e representação enquanto classes referem- se a infra-estrutura, as condições concretas.


A crise do conceito de classes deve- se, em parte, aos teólogos do marxismo, pois, como nos mostra Sartre em “Questão de Método”, esqueceram o sentido dialético, de movimento, deste conceito e o transformaram em uma essência, uma idéia “a priori”, como se “a” classe operária, por exemplo, andasse por aí moldando pessoas e pensamentos como uma forma de bolo. O operário do final do século passado, que trabalhava mais de dez horas por dia apertando parafusos, não é como o operário de hoje apertando botões do robô e trabalha oito horas por dia. É verdade também que o número de operários industriais, produtores - diretos da mais-valia, decresce significativamente e perde força política. O mais assustador é que o chamado exército industrial de reserva transforma-se em exército de excluídos, não mais na reserva, mas completamente desnecessário ao sistema.


Entretanto, se não é mais possível falar simplesmente em classes operária, é ainda perfeitamente possível falar em condição de classe. A condição de classe relaciona- se com o que Sartre chamou de campo dos possíveis. Um filho de costureira, morando num barraco de duas peças com mais de seis pessoas — alguns exemplos de condição de classe, tem mais dificuldade de aprendizagem-que o filho de um administrador empresarial, que tem um micro ultra moderno e quarto individual, embora ambos estudem na mesma escola. As possibilidades de realização dos projetos de vida do primeiro reduz-se sensivelmente e, em relação ao segundo, está em desvantagem na concorrência do mercado de trabalho. Estas possibilidades ou limitações de auto- investimento que possa abrir caminhos, condicionadas pela posição de classe, formam o campo dos possíveis. Este amplia-se conforme as condições econômicas e reproduz a estratificação social. Neste sentido, todos os trabalhadores que não encontram outra alternativa para sobreviver além da venda de sua força de trabalho pelo menor preço pertencem a mesma classe por estarem nas mesmas condições.


A luta de classes é uma luta cotidiana por posições na sociedade que permitam uma ampliação no campo dos possíveis. Mas, a abundância da oferta de mão de obra, causada pelo desemprego e pelas no tecnologias, transformou os trabalhadores em verdadeiros replicantes como no filme “Blade Runner”, descartáveis, e fomentou a luta intra-classes. No plano imediato, José é concorrente direto de João na busca de um serviço, não havendo espaço para a solidariedade e nen para a identificação da mesma condição de classes.


Quis apenas indicar alguns tópicos que acho importante na compreensão do mundo contemporâneo, pois embora as classes sociais sejam consideradas ultrapassadas por alguns teóricos, elas continuam existindo e merecem ser rediscutidas dentro de uma perspectiva não determinista nem exclusivamente econômica, nem mecanicista e muito menos essencialista.


“Yo no creo en las classes, pero que las hay, las hay!”

Texto originalmente publicado em:

www.webhumanas.net