sábado, 19 de novembro de 2011


Pra não dizer que não falei de classes



Pra não dizer que não falei de classes


Prof. Me. Alexandre Lobo


Para muitas pretensas teorias importadas da Europa, não há mais sentido pensar em sociedades divididas em classes sociais, a sociedade não é mais a mesma desde Marx, o mundo do trabalho cedeu lugar ao mundo da vida. A figura do Tio Patinhas como o exemplo clássico capitalista parece ser coisa de achado arqueológico. Para as instâncias do saber competente, fazendo eco aos meios de comunicação, o interesse nas questões do conflito entre capital e trabalho desloca-se para questões de gênero, etnias e tribos urbanóides, fazendo com que os interesses das empresas transnacionais pareçam filantrópicos.


Certamente a sociedade não é mais a mesma, ela transformou-se, apareceram novas tecnologias, diversas formas de discriminação social foram percebidas, mas nem por isso a lógica do sistema em que vivemos deixou de ser a acumulação de capitais, embora hoje o capital já não possa mais ser visto como material somente. Informação, reconhecimento e relações sociais são meios de manter e ampliar recursos num mundo competitivo.


Não se pode menosprezar a importância das questões de gênero, étnicas e religiosas para compreensão da vida contemporânea. Desigualdade entre sexos e etnias perpassa as classes e os novos movimentos sociais dizem respeito a todos, o poder ainda é macho e branco, o feminino encontra-se subordinado ao masculino tanto na burguesia quanto no proletariado. Entretanto, o acesso ao poder, poder de ir e vir, de comer regularmente, estudar e construir um futuro, entre tantas outras possibilidades de poder, não é apenas uma questão de cor ou sexo, mas de distribuição social de recursos. Não se pode ter uma visão romântica do feminino ou da negritude como se estes fossem portadores de um projeto social estruturalmente diferente do capitalismo. Possivelmente, todas as deputadas ditas feministas concordariam em questões sobre o aborto, emprego, chefia de família, mas, certamente não haveria tanto consenso quanto a Reforma Agrária e distribuição de renda. Parece-me que as questões dos novos movimentos sociais não classistas estão mais próximas da superestrutura, da ideologia, da mentalidade e representação enquanto classes referem- se a infra-estrutura, as condições concretas.


A crise do conceito de classes deve- se, em parte, aos teólogos do marxismo, pois, como nos mostra Sartre em “Questão de Método”, esqueceram o sentido dialético, de movimento, deste conceito e o transformaram em uma essência, uma idéia “a priori”, como se “a” classe operária, por exemplo, andasse por aí moldando pessoas e pensamentos como uma forma de bolo. O operário do final do século passado, que trabalhava mais de dez horas por dia apertando parafusos, não é como o operário de hoje apertando botões do robô e trabalha oito horas por dia. É verdade também que o número de operários industriais, produtores - diretos da mais-valia, decresce significativamente e perde força política. O mais assustador é que o chamado exército industrial de reserva transforma-se em exército de excluídos, não mais na reserva, mas completamente desnecessário ao sistema.


Entretanto, se não é mais possível falar simplesmente em classes operária, é ainda perfeitamente possível falar em condição de classe. A condição de classe relaciona- se com o que Sartre chamou de campo dos possíveis. Um filho de costureira, morando num barraco de duas peças com mais de seis pessoas — alguns exemplos de condição de classe, tem mais dificuldade de aprendizagem-que o filho de um administrador empresarial, que tem um micro ultra moderno e quarto individual, embora ambos estudem na mesma escola. As possibilidades de realização dos projetos de vida do primeiro reduz-se sensivelmente e, em relação ao segundo, está em desvantagem na concorrência do mercado de trabalho. Estas possibilidades ou limitações de auto- investimento que possa abrir caminhos, condicionadas pela posição de classe, formam o campo dos possíveis. Este amplia-se conforme as condições econômicas e reproduz a estratificação social. Neste sentido, todos os trabalhadores que não encontram outra alternativa para sobreviver além da venda de sua força de trabalho pelo menor preço pertencem a mesma classe por estarem nas mesmas condições.


A luta de classes é uma luta cotidiana por posições na sociedade que permitam uma ampliação no campo dos possíveis. Mas, a abundância da oferta de mão de obra, causada pelo desemprego e pelas no tecnologias, transformou os trabalhadores em verdadeiros replicantes como no filme “Blade Runner”, descartáveis, e fomentou a luta intra-classes. No plano imediato, José é concorrente direto de João na busca de um serviço, não havendo espaço para a solidariedade e nen para a identificação da mesma condição de classes.


Quis apenas indicar alguns tópicos que acho importante na compreensão do mundo contemporâneo, pois embora as classes sociais sejam consideradas ultrapassadas por alguns teóricos, elas continuam existindo e merecem ser rediscutidas dentro de uma perspectiva não determinista nem exclusivamente econômica, nem mecanicista e muito menos essencialista.


“Yo no creo en las classes, pero que las hay, las hay!”

Texto originalmente publicado em:

www.webhumanas.net

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