sábado, 31 de dezembro de 2011

DITADURA: A FOTO DA DILMA E O TEATRINHO MILITAR

Já que fui citado na imprensa como um dos réus fotografados no mesmo lote da imagem de 1970 da presidente Dilma Rousseff, vale a pena falar um pouco sobre como, durante a ditadura de 1964/85, encenavam-se julgamentos nas auditorias militares para justificar as sentenças que os serviços de Inteligência e o comando das Forças Armadas previamente estipulavam.

Deu n'O Globo (vide íntegra aqui): 
"No começo de 2011, quando o país assistia meio incrédulo à festança de chegada ao poder de uma mulher e ex-guerrilheira, caíram nas mãos do pesquisador Vladmir Sachetta, por acaso, três fotos que revelavam um dos momentos mais marcantes da 'terrorista' Vanda. As fotos são da presidente Dilma Rousseff no frescor de seus 22 anos, com ar rebelde, e de seu ex-marido Carlos Araújo, em depoimento na Primeira Auditoria Militar do Rio, em novembro de 1970.
 Sachetta (...) procurava imagens de militares da Aeronáutica envolvidos no sequestro, desaparecimento e morte de Rubens Paiva. Caiu nas mãos dele uma pasta com o título Justiça Militar. Na última página, encontrou as fotos de Dilma, Araújo e do estudante Celso Lungaretti, feitas por um fotógrafo da Última Hora (...) e publicadas uma só vez, na capa do jornal, em 18 de novembro de 1970.
...no arquivo do jornal, no dia da publicação, a foto de Dilma recebeu a seguinte identificação no verso: '1 Auditoria do Exército (Julgamento dos terroristas Celso Lungaretti, Carlos Franklin Paixão de Araújo e Dilma Rousseff Linhares). Na foto a estudante terrorista Dilma Rousseff Linhares quando era sumariada'".
A foto da Dilma foi espalhadíssima na internet; a minha, que está acima, acabo de receber do companheiro Ricardo Amaral, autor do livro sobre a trajetória da presidente, A vida quer é coragem; e a do Max (Carlos Franklin Paixão de Araújo), aparentemente, só pode ser encontrada em tal livro.

Respondi a quatro processos, os da VPR e da VAR-Palmares, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Isto porque ingressei na VPR em abril/1969, a organização se fundiu com o Colina no meio do ano (formando a VAR) e em outubro reconstituímos a VPR, depois de  racharmos  no Congresso de Teresópolis.

No fundo, os militares não fizeram direito a lição de casa, pois eu militei na VPR nos dois Estados, mas só militei na VAR em SP. Deveria ter ficado de fora do processo da VAR no RJ --exatamente aquele de que a notícia trata.

Eu só me lembrava da  Vanda  no Congresso do racha, quando nos colocamos em campos opostos. Mas, como vários jornalistas andaram me ligando para saber se eu tinha algo de interessante a relatar sobre a nova presidente --não tinha--, cheguei a pensar que provavelmente nos haveríamos reencontrado como réus de um ou dos dois processos da VAR. Agora isto está confirmado.

Apesar de já se terem passado mais de quatro décadas, fico meio perplexo por haver esquecido tão completamente muito do que rolou nas auditorias.

Talvez porque aquele jogo de cartas marcadas me entediasse mortalmente: graças às informações que reunira como comandante de Inteligência da VPR e da VAR, eu tinha absoluta certeza de que as sentenças eram previamente definidas pelo alto comando, a partir das avaliações da 2ª Seção do Exército, do Cenimar e do Cisa, só cabendo àqueles figurantes simularem que estavam nos julgando.

Foi mais um descalabro da ditadura, submeter civis à Justiça Militar, com oficiais da Arma respectiva e um juiz auditor fazendo as vezes de jurados isentos.

Se fosse para valer, que chance teríamos? Nenhuma, nossa condenação seria inevitável segundo as leis de exceção impostas pelos que haviam estuprado a liberdade.

E, não sendo para valer, eles eram obrigados a obedecer às ordens recebidas.

Era tudo tão patético que, certa vez, em pleno julgamento, o advogado de ofício começou a não falar coisa com coisa. Percebendo que ele estava bêbado, o juiz auditor o expulsou e designou outro, que foi obrigado a improvisar a defesa... em cerca de dez minutos! 

Suspenderam a sessão para o cafezinho e ele passou os olhos pelo processo. Na reabertura fez sua arenga,  apelando para generalidades e platitudes, já que não conseguira inteirar-se das especificidades do caso.

A lembrança mais nítida que conservo é a de Matos (Cláudio de Souza Ribeiro) com olhar perdido, parecendo nem reconhecer os antigos companheiros.

Ele vinha dos movimentos da marujada que antecederam o golpe e chegou até a ser comandante da VPR e da VAR. Mas, entrou em crise, afastou-se da militância e foi levar vida de civil numa aldeia de pescadores, montando casa com uma militante de base que desistiu da luta por ele.

Traído (sexualmente...) por ela e diante da perspectiva de ser abandonado, assassinou-a e foi entregar-se à polícia. Acabou no DOI-Codi, suplicando para que o matassem e ouvindo a resposta de que lá só morria quem eles queriam, não aqueles que queriam morrer. 

Vê-lo reduzido a trapo me chocou e consternou. Era o único de nós que estava algemado em plena auditoria, sentado com um agente de cada lado --temiam que ele realmente desse cabo da vida. Sua história (mais detalhes aqui) é dilacerante.

Por último: muitos internautas comentaram que, na foto da Dilma, os militares escondiam a cara por vergonha. Não, era por paúra mesmo. Temiam ser retaliados, como se não soubéssemos que seu papel era  decorativo.

Se havia contas a acertarmos, era com os torturadores, com seus mandantes, com os financiadores da repressão, etc. Não com esses atores de quinta categoria.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Liberdade e escravidão


LOSURDO, Domenico. Contra-história do liberalismo. Trad. Giovani Semeraro. Aparecida: Ideias e Letras, 2006. 400 p.

            Como indica o próprio título do livro, trata-se de uma história do liberalismo político. Não se trata, porém, de uma história das doutrinas teóricas liberais. Destas já dispomos, algumas apologéticas, outras críticas, desde a “história das teorias da mais-valia” de Karl Marx (vol. IV de O capital) até a interpretação do “individualismo possessivo” por C.B. Macpherson. O foco de Losurdo neste livro é o “liberalismo realmente existente”, para parafrasear a famosa expressão sobre o stalinismo e o maoísmo, seu interesse são as políticas dos partidos, ideólogos e regimes liberais em relação a temas muito concretos: a escravidão, o colonialismo, o racismo, a pobreza e a relação entre patrões e trabalhadores. Locke e Tocqueville, James Madison e Montesquieu, J.S. Mill e Benjamin Constant aparecem aqui como políticos práticos, e não apenas como os teóricos do liberalismo.
            A crítica já estabelecida por Karl Marx é que o liberalismo, como teoria e prática política e econômica, se reduz ao programa de emancipação civil e política, negando a emancipação econômico-social, esta posta na ordem do dia pelo socialismo. De acordo com Marx, e igualdade política é uma igualdade formal que oculta a relação social real de domínio de classe, da mesma forma que a igualdade formal na troca de mercadorias no mercado  mascara a violência da exploração capitalista do trabalho assalariado. Resta ao socialismo a conquista dessa emancipação econômico-social do trabalho, pois a emancipação política já estaria em vias de realização por obra da própria burguesia revolucionária dos séculos XVIII e XIX. Os obstáculos aos direitos civis e políticos seriam apenas "sobrevivências" do Antigo Regime. A igualdade formal é, portanto, a máscara da alienação. Esta avaliação é complementada por C.B. Macpherson, ao identificar no “individualismo possessivo” o fundamento teórico do Estado liberal, que coloca o “proprietário” antes do “cidadão”, na medida em que o indivíduo conquista liberdade civil como proprietário do seu corpo, da sua opinião e, é claro, dos seus bens e rendas. O cidadão-proprietário liberal seria ainda visto sob o prisma individualista, com a suposição de um “estado de natureza” pré-social. Como marxista crítico, Losurdo demonstra os limites destes modelos marxiano e macphersoniano de crítica do liberalismo, ao chamar a atenção para a relação entre os regimes liberais e os direitos civis e políticos, que mostra-se, na realidade, muito mais complexa e contraditória do que supõe o modelo interpretativo de Marx. A Inglaterra e os Estados Unidos dos séculos XVIII e XIX são tomados como exemplos paradigmáticos (mas não exclusivos) deste “liberalismo real” que Losurdo procura analisar.
            Losurdo traça a história da consolidação da escravidão racial dentro dos Estados Unidos, que, segundo o autor, não apenas foi conservada pela revolução liberal estadunidense, como se expandiu e enrijeceu-se após ela. Consolidada pela constituição e por legislações federais e estaduais, a escravidão racial era defendida, ora como “mal necessário”, ora como “bem positivo”, por autores que hoje são tidos como filósofos da liberdade. A igualdade dentro da comunidade dos cidadãos livres corresponde ao poder despótico sobre todos aqueles que estão excluídos desta comunidade livre. Como ironizou o poeta e comediante George Carlim, “nosso país [os EEUU] foi fundado por senhores de escravos que queriam ser livres”. Losurdo não deixa de observar que os colonos rebeldes que fizeram a revolução liberal norte-americanas queixavam-se dizendo que eram “tratados como negros” pela monarquia inglesa. O modelo não deixa de recordar as especulações de Aristóteles sobre a relação entre democracia e escravidão no seu “A política”, onde o filósofo grego, muito caro aos liberais, considera a escravidão natural e necessária para a liberdade e igualdade dos cidadãos. Encontram-se argumentos semelhantes em liberais que, admiradores ou líderes do Sul dos Estados Unidos, afirmam que a liberdade civil e política emerge com mais força em sociedades aristocráticas e escravistas. A Inglaterra, por outro lado, abole a escravidão dentro das suas fronteiras nacionais, conservando-as nas suas colônias e, principalmente, fazendo enormes lucros com o tráfico de escravos.
            A dualidade entre liberdade e despotismo também é observada por Losurdo na evolução ulterior dos regimes liberais inglês e estadunidense. Após a sangrenta guerra civil dentro dos Estados Unidos, a escravidão é abolida, apenas para ser substituída por um regime de castas onde a democracia para os brancos é uma ditadura terrorista para os negros, excluídos dos direitos civis e políticos segundo a regra da “uma gota de sangue”, que estabelece que qualquer um que tive ¼ de ascendência não-branca não pode ser um cidadão “americano”. Pesa também contra os afro-estadunidenses o terrorismo civil da Klu Klux Klan, o isolamento em ghettos, etc. A opressão dos negros é complementada pela “Marcha para o Oeste” e sua ideologia do “Destino Manifesto”, a prática e a ideologia expansionista que, por meio de deportações, guerras e massacres, levou ao desaparecimento de milhões de nativos americanos, hoje reduzidos a algumas poucas centenas de sobreviventes. Na Inglaterra, por outro lado, até mesmo os brancos não proprietários são excluídos dos direitos políticos, e sofrem os efeitos combinados da pobreza e superexploração e de um judiciário draconiano, pródigo na aplicação das penas de trabalho forçado e de morte. Estes trabalhadores pobres eram chamados de “instrumentos vocais” ou “máquinas bípedes” por teóricos e líderes como Mandeville, Bhentam, do mesmo modo que Benjamin Constant teoriza sobre a “cidadania passiva” e “ativa”, para justificar a exclusão dos não proprietários dos plenos direitos civis e políticos. Ao mesmo tempo, a política expansionista leva ao domínio de várias colônias, cujas populações são excluídas até dos mais elementares direitos civis. J.S. Mill não deixa de aprovar este “despotismo” quando se lida “com os bárbaros”, em termos nitidamente racistas. A universalização da cidadania civil e política para os súditos ingleses da monarquia britânica nada significa para o crescente número de súditos asiáticos, africanos, nativos australianos e irlandeses Para estes, a democracia parlamentar britânica não passava da mais cruel ditadura, que não hesitava em lançar mão do genocídio administrativo para suprimir rebeliões.
            As políticas colonialistas e racistas dos regimes liberais, assim como os argumentos dos ideólogos para justifica-las e orientá-las, não deixam de mostrar uma dualidade entre democracia e ditadura comparável àquela entre liberdade e escravidão. A explicitação desta contradição, a associação da doutrina burguesa das liberdades civis e políticas com as teorias e práticas escravistas, expansionistas e coloniais, racistas e eugenistas, é sem dúvida uma das grandes contribuições de Losurdo ao entendimento do pensamento político ocidental. Outra contribuição é distinguir claramente o liberalismo do radicalismo abolicionista e/antirracista, que inspira a revolução haitiana que funda uma república negra nas Américas, a militância abolicionista nos Estados Unidos e a abolição da escravidão nas colônias francesas durante o governo de Robespierre. Posteriormente, o ditador liberal Napoleão Bonaparte restaurará a escravidão nas colônias e tentará recolonizar o Haiti, formulando o sinistro plano de exterminar todos os negros haitianos e importar escravos africanos para substituí-los. Losurdo observa que os princípios que guiam os radicais, desde as revoluções francesa e haitiana, até a superação crítica do radicalismo pelo socialismo crítico de Marx e Engels, não são os mesmos que os postulados dos políticos e filósofos liberais, que não veem problemas em excluir uma boa parte da humanidade daqueles “direitos naturais” que são o evangelho do liberalismo teórico.
            O autoritarismo (neo)liberal de teóricos e políticos como Hayek, Mises, Friedman, Pinochet, Taecher e Reagan torna-se menos surpreendente diante dessa histórica relação entre regimes liberais-democráticos e políticas escravistas, coloniais, racistas e eugênicas. O liberalismo real dos séculos XVIII e XIX significa a liberdade como privilégio dos ricos, brancos e homens. Mais que isso, Losurdo observa que o social-darwinismo de um Hayek ou de um Friedman seria facilmente acusado de ser “não liberal” e “radical” por vários dos seus antecessores e inspiradores.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Por uma politização da cotidianidade


Por Japa


O que nos leva a crer que fazer política é algo enfadonho e chato? Será que existe um profissional da política que se encontre para além das contradições de classe que definem os nossos tempos? A política é meramente um ato de apertar um botão a cada dois anos para se eleger determinado candidato que, a partir do momento de sua eleição, não teria que dar mais nenhuma satisfação aos seus eleitores? Democracia seria então um sinônimo de representatividade?

Pelo desenvolvimento histórico dessa sociedade capitalista se percebe que o direito ao sufrágio universal não foi um dado apriorístico, muito pelo contrário o direito universal ao voto foi uma luta dos trabalhadores para obter tal direito, a comuna de Paris não me deixa mentir, então o que passou durante mais de um século para que esse direito hoje em dia se transformasse em algo tão pesado, tão estranho em relação ao povo? Nos países onde o voto é facultativo a cada ano se vê uma diminuição da participação nas eleições, isso se deve a que?

Para se responder a esses questionamentos, é necessário que se questione o verdadeiro valor dessa democracia representativa burguesa, nesse tipo de democracia o fazer político se resume a votar, as políticas engendradas nesse tipo de democracia não necessariamente, mais precisamente na maioria esmagadora das vezes, funcionam em uma lógica de poder de cima para baixo, as políticas não passam pelo crivo das pessoas que elegeram determinado político, a priori essas políticas são para beneficiar todo o corpo social, mas será que a política de aumento do salário mínimo beneficia todo o corpo social ou apenas um? Será que os trabalhadores não gostariam e desejariam que ao invés de se pagar os juros da dívida pública se investisse em melhorias da saúde e da educação? Isso é algo a se esclarecer a política se tornou uma via de mão única, não existe um canal aberto para que os trabalhadores ou não decidam o que é bom ou ruim para eles.

A única democracia que conhece é a democracia direta, só possível em uma sociedade socialista, nesse tipo de democracia a política existirá um consenso entre os atores sociais para se alcançar um objetivo comum, política nesse sentido é se ouvir toda a sociedade para que tenhamos um consenso em qual caminho devemos seguir, ou seja, nós construímos nosso futuro, nós seremos senhores de nós mesmos sem ninguém a decidir sobre qual caminho trilhar, isso é democracia e não isso que os burgueses ter que acreditemos que seja, a democracia representativa, porém isso não quer dizer que se instauraria uma ditadura da maioria, a minoria seria e sempre terá de ser respeitada, lógica que dentro de certos limites, seria inadmissível se respeitar um neonazista, é disso que estou falando.

Portanto nada mais esperado do que a existência de uma espécie de esvaziamento da política, principalmente da cobrança da população em relação aos políticos, isso esconde mais uma vez uma dominação de classes, quando se afirma que o fazer político é algo a ser feito por profissionais, na realidade se pretende retirar da arena política a imensa maioria da população, e como nos ensinou o grande Karl Marx, o Estado é uma estrutura que legitima e reproduz a dominação de uma classe social sobre a outra, portanto esse discurso deixa em aberta a possibilidade do grande sonho da burguesia a de não ter nenhum tipo de freio para exercer sua dominação de classe, conclama aos companheiros e companheiros um novo fazer político, por uma politização da cotidianidade, sei que per si esse ato não terá o poder de transformar a sociedade burguesa, para isso faz necessário lutar no plano material também, porém um socialismo sem essa premissa de democracia pode ser tudo menos um socialismo verdadeira e que faça jus a grande herança de Marx e Engels.

O CAPITALISMO NOS OBRIGA A FLERTAR COM A MORTE

Por Celso Lungaretti (*)
É de Norman O. Brown a tese de que o capitalismo, em sua fase terminal, tornou-se agente da destruição da humanidade.

A teorização dele em Vida contra morte (1959) é tão complexa que os resumos se tornam inevitavelmente reducionistas e empobrecedores. É melhor mesmo enfrentarmos a obra, uma das poucas que trazem reais subsídios à compreensão do nosso tempo... mesmo meio século depois!

O certo é que, indo além do óbvio ululante de que o capitalismo já esgotou sua função histórica e está prenhe de revolução, O. Brown dissecou com ferramentas freudianas, exaustivamente, as características que o vampiro assume em sua sobrevida artificial, concluindo que ele cataliza as energias destrutivas dos homens, voltando-as contra eles.

Fantasioso? Se pensarmos na destruição e no caos que estão à nossa espera nas próximas décadas, decorrentes das agressões insensatas ao meio ambiente, perceberemos que ele foi, isto sim, profético.

Vide, p. ex., esta notícia da Agência Brasil, assinada pela repórter Renata Giraldi, que aproveitou despachos da BBC e de outras agências internacionais:
"O mundo está 'perigosamente' despreparado para lidar com futuros desastres naturais, advertiu a agência de desenvolvimento internacional da Grã-Bretanha. A agência britânica informou que o despreparo é causado pela ausência de contribuição dos países ricos ao fundo de emergência mundial.

O fundo de emergência é uma iniciativa da Organização das Nações Unidas, criada como resposta a tsunamis, com o objetivo de auxiliar regiões afetadas por desastres naturais.

De acordo com informações de funcionários da ONU, o fundo emergencial sofre com um déficit equivalente a R$ 130,5 milhões para 2012.

A escassez do fundo, segundo especialistas, tem relação direta com a série de tragédias naturais que ocorreram ao longo de 2011, como o tsunami seguido por terremoto no Japão; a sequência de tremores de terra na Nova Zelândia, enchentes no Paquistão e nas Filipinas e fome no Chifre da África.

Ontem (26) peritos japoneses e estrangeiros concluíram que medidas de precaução adequadas poderiam ter evitado os acidentes radioativos, na Usina de Fukushima Daiichi, no Nordeste do Japão, em 11 de março deste ano...

...Segundo eles, houve falhas no que se refere às influências de terremotos e tsunamis na estrutura física da usina".
Resumo da opereta: o lucro é a prioridade máxima, dane-se a nossa sobrevivência! A mesma lógica   perversa se constata numa infinidade de outras ocorrências. O capitalismo nos obriga a flertar com a morte.

O pensador nascido no México, filho de um casal estadunidense, apostava na  ressurreição dos corpos, na liberação do erotismo para derrotarmos a repressão e a morte --um pouco na linha de Wilhelm Reich, só que com argumentação bem mais sofisticada.

Contudo, deve ser também considerada a tese de Herbert Marcuse sobre a  dessublimação repressiva  sob o capitalismo, ou seja, uma dessublimação meia-boca, que não extingue a repressão.

É como pode ser considerada a atual banalização do sexo como descarga física, sem real envolvimento amoroso.

Ou seja, o sexo casual, coisificado, em que os parceiros usam um ao outro para obterem seu prazer egoísta, sem doação, sem verdadeiramente se complementarem.

Este acaba reforçando a repressão, ao deslocá-la para o outro oposto: em lugar do amor com sexo travado de outrora, o sexo animalizado de hoje, dissociado do amor.

Já encontrei moças que, nuas e oferecidas, recusavam-se a ser beijadas na boca, como antes era atitude comum das prostitutas. Só faltava repetirem a frase que Hollywood costuma atribuir aos gangstêres: "Não é pessoal, são só negócios"...

Neste sentido, acredito em O. Brown: a plenitude amorosa --em que o amor físico e espiritual são uma e a mesma coisa, com a identidade dos parceiros se dissolvendo num conjunto maior, quando um mais um soma bem mais do que dois-- continua incompatível com o capitalismo.

Transgride-o e o transcende, empurrando os domesticados seres humanos para uma convivência amorosa/harmoniosa com o(a) outro(a) --e, por extensão do mesmo clima, com todos os demais  e com a natureza.

Impelindo-os, enfim, à aventura da libertação.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

REFLEXÕES SOBRE A MORTE DE UM TIRANO

Nas pegadas de Stálin: assim se cultuava a
personalidade do ditador que já foi tarde.
Pelos motivos que vou expor adiante, nunca me interessou particularmente o que acontecia na Coréia do Norte. A idade me ensinou a manter distância daquilo que só me deprimirá. 

Mas, para os interessados, recomendo a ótima análise de Elio Gaspari em sua coluna Já foi tarde (acesse íntegra aqui) da qual destaco estes parágrafos estarrecedores:
"Em 1945, a península coreana foi dividida entre duas ditaduras. A do Norte, comunista e rica. A do Sul, capitalista e pobre. Nos anos 60, quando se falava em  milagre coreano, o tema era a supremacia socialista. Em 1970, todos os vilarejos do país tinham eletricidade. 

Passou-se uma geração, o Sul tem uma democracia e o Norte tem uma tirania enlouquecida, que mais se parece com a  Spectre  do romance de Ian Fleming do que com um Estado. Em apenas quatro anos, entre 1991 e 1995, a renda per capita da população caiu de US$ 2.460 para US$ 719. O regime vive do socorro cúmplice da China.

Falta eletricidade, mas as 34 mil estátuas do  Pai da  Pátria Socialista  são iluminadas mesmo de dia.

A professora Mi-Ran conta que via alunos de cinco ou seis anos morrerem de fome nas salas de aula. Sua turma de jardim de infância de 50 alunos caiu para 15.
De Hitler a Kim Jong-il, os grandes ditadores
sempre tiveram paradas militares como fetiche
 Nas casas desse paraíso, uma parede da sala deve ser reservada para o retrato do  Líder, que é distribuído com um pano. Fiscais zelam para que nenhuma família deixe de limpá-lo.
A fome dos anos 90 matou entre 600 mil e 2 milhões de coreanos do norte. Em algumas cidades morreram dois em cada dez habitantes. Um médico conta que ensinou mães a ferver demoradamente a sopa de capim. A certa altura, as famílias preferiam que as crianças morressem de fome em casa, porque nos hospitais, onde não havia remédio, faltava também comida".
O PODER MANTIDO A FERRO E FOGO,
SOBRE MONTANHAS DE CADÁVERES

 Um conceito do marxismo clássico que até hoje considero axiomático é do que o destino do mundo se decide nos países com economia avançada, não nos periféricos.

Era nesses que Marx queria iniciar a construção do socialismo, convicto de que arrastariam os demais na sua esteira.

Mas, quando foi o reformismo e não a revolução que neles prevaleceu após a revolução soviética de 1917, os apressadinhos correram a trocar o foco, passando a tentar mudar o mundo a partir das nações menos pujantes --o que só gerou decepções e fez brotarem tiranias como cogumelos.

As potências centrais acabam sempre por anular tais arroubos, seja forçando trocas de regime, seja asfixiando tais nações mediante embargos econômicos como o imposto a Cuba.

Muitos, por estarem sendo forçados a socializar a penúria e não a abundância, acabaram descambando para os piores despotismos, como o Camboja do Pol Pot. A palavra de ordem de tais  nomenklaturas  é a manutenção do poder a ferro e fogo, sobre montanhas de cadáveres.

Barricadas parisienses, 1968: os comunistas
franceses preferiram salvar Charles De Gaulle.
E os esquerdistas que, desde Stalin, traem a proposta libertária do marxismo e se põem a defender brutais tiranos, tornam execrável a imagem da revolução aos olhos dos explorados das nações prósperas, aqueles que precisaríamos reconquistar para voltarmos a oferecer uma perspectiva revolucionária global, como havia um século atrás.

A mesmerizante indústria cultural burguesa martela dia e noite na cabeça dos   videotas  que a alternativa ao capitalismo é miséria e chicote.

Os movimentos de contestação de 1968 e anos seguintes foram os últimos que abriram uma possibilidade real de revolução nos países prósperos. Nunca saberemos o que aconteceria se o Partido Comunista Francês tivesse se colocado no lado certo das barricadas, junto aos estudantes e operários jovens que se rebelaram, e não esfaqueando-os pelas costas.

Resta, para nós, a titânica tarefa de recolocarmos a revolução aos trilhos, reentronizando sua componente libertária, sem a qual ela jamais voltará a ser atrativa para os melhores seres humanos --mormente na era da internet! 

É impensável, para cidadãos tão ciosos da sua liberdade pessoal como os de hoje, a perspectiva de desperdiçarem esforços na construção de regimes que lhes imporão camisas de força. Tanto quanto em 1968, temos, isto sim, de encarnar a esperança do  paraíso agora!

E as terríveis frustrações com o stalinismo (degeneração burocrática da revolução que culminou na volta ao capitalismo e à democracia burguesa) e com o maoísmo (de cuja derrocada resultou o pior dos mundos possíveis, um capitalismo de estado altamente despótico) servem como sonoro alerta de que a nova revolução terá, obrigatoriamente, de ser global, tanto quanto o capitalismo hoje é global.

O chamado  socialismo real  implantado em países isolados, nem serviu como estopim para a revolução mundial, nem se manteve... socialista. Na verdade, tornou-se uma caricatura odiosa do socialismo, que melhor serviu à burguesia como espantalho do que para nós como cartão de visita.

É hora de reassumirmos a revolução mundial --e, eminentemente, libertária-- como meta suprema.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

MAIS UMA INTIMIDAÇÃO NEOFASCISTA NA USP

A  escalada autoritária que José Serra desencadeou e Geraldo Alckmin desembestou está levando a Universidade de São Paulo de volta aos tempos nefandos do decreto 477 --a  licença para expulsar  concedida pela ditadura militar aos 007 que se passavam por educadores, quando o coronel Jarbas Passarinho fingia ser ministro da Educação.

Nenhum cidadão verdadeiramente de esquerda pode omitir-se diante das seis cabeças cortadas na USP. Até porque mais e piores provocações virão se cruzarmos os braços.

Caça às bruxas é tudo o que se poderia esperar de um reitor tido e havido como integrante da arquirreacionária Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade.

Trata-se de um direitista tão extremado que, quando participou da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, tudo fez para que não fosse reconhecida a responsabilidade do Estado brasileiro nos mais ignóbeis assassinatos perpetrados pela repressão ditatorial, como os de Stuart Angel e Edson Luiz Lima Souto..

Todo apoio ao movimento estudantil, em sua luta para esmagar o ovo da serpente que está sendo incubado na USP!

Por último: é muito mais importante, necessário e urgente combatermos as fascistagens tucanas no presente do que escarafuncharmos as privatarias tucanas do passado.

Pois, no primeiro caso, há injustiças concretas a evitarmos e êxitos reais a obtermos.

Já no segundo, o máximo a que podemos aspirar é uma vitória moral, pois, mesmo que cabalmente provadas as culpas, os expedientes de sempre serão acionados para que tudo termine em pizza.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

MAIS UM PASSO RUMO À PALESTINA LIVRE E SOBERANA

Por Celso Lungaretti

Desde hoje (3ª feira, 13), a bandeira palestina tremula na sede parisiense da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. A Unesco é a primeira agência da ONU que reconheceu esse território como membro de pleno direito.

O ato solene contou com a presença da diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, e do presidente palestino, Mahmoud Abbas, que destacou tratar-se do "primeiro reconhecimento para a Palestina", daí ter sido para ele tão "emocionante ver nossa bandeira hasteada hoje numa sede da ONU".

No final de outubro, quando a admissão da Palestina foi decidida, os EUA imediatamente retaliaram, o que me fez lembrar a puerilidade de comportamentos das turminhas de rua da minha meninice: 
"Por discordarem da admissão da Palestina como membro pleno, os EUA levarão a bola pra casa (no caso, os fundos de US$ 60 milhões que lhe destinavam), privando-a de 22% do seu orçamento bianual.
A entrada dos palestinos foi decidida por 107 votos a favor, 14 contra e 52 abstenções.

Ou seja, democraticamente, 62% dos países-membros aprovaram.

E, antidemocraticamente, uma das nações discordantes teve reação característica de mariquinha pirracento".
De resto, o estado de Israel parece determinado a impor aos outros exatamente o que seu povo sofreu: não só nega aos  palestinos errantes  o direito a uma pátria livre e soberana, como criou na faixa de Gaza uma versão atualizada do Gueto de Varsóvia.

A ponto de a música comemorativa do estabelecimento dos judeus na sua terra prometida, "Êxodus", agora cair como uma luva para suas vítimas, os palestinos:
"Eu vou pisar o chão que Deus me deu,
a terra que em sonhos vi.
O sol do amanhecer
mostrou-me o vale em flor,
que é todo meu, assim Deus prometeu.

Vem, meu amor, a terra conquistar,
aqui os nossos vão crescer.
Bem junto a ti eu sou
um homem e nada mais,
mas, se Deus quiser, um forte hei de ser.

Aqui farei meu lar.
Se Deus quiser que eu morra, eu morro sem chorar,
pois, afinal, vou ter meu lar".

OUTROS TEXTOS RECENTES (CLIQUE P/ ABRIR):
INTOLERÂNCIA
O SAGRADO DIREITO AO CANIBALISMO
CIDADE DE BANCO NUNCA SERÁ CIDADE DE DEUS
DILMA CHOROU

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O PIB E OS PAPAGAIOS DO CAPITALISMO

"Na regra, é preciso descobrir o abuso.
E sempre que o abuso for encontrado,
é preciso encontrar o remédio.
Vocês, aprendam a ver, 
ao invés de olhar bobamente"
(Brecht,  A exceção e a regra)

Bur(r)ocratas governamentais, expertos espertinhos, doutos economistas, analistas econômicos e outros papagaios do capitalismo fazem o maior estardalhaço: o Produto Interno Brasileiro parou de crescer! No último trimestre, repetiu o patamar de julho/setembro de 2010! Deus nos acuda!!!

Mas, há matéria-prima e capacidade instalada para se produzir mais? Há.

Há recursos humanos para se produzir mais? Há.

Há brasileiros necessitados de que se produza mais, para levarem existência digna ao invés de vegetarem na penúria? Há.

Então, qual é o problema?

Apenas o de que, para os senhores do mundo, não está sendo lucrativo produzir mais nas atuais circunstâncias. 

Ou seja: inexiste obstáculo real, tudo se resume a mais uma crise artificial.

O que fazer, então?

A primeira possibilidade é a única que os papagaios do capitalismo contemplam: arrocharem-se povos e nações para que volte a ser lucrativo produzir mais. Que morram os homens para que vivam os bancos!

A segunda só entra nas cogitações de quem consegue enxergar um pouco mais longe: os homens organizarem-se solidariamente para um melhor aproveitamento da matéria-prima, da capacidade instalada e dos recursos humanos.

Isso tudo poderia estar servindo para satisfazer as necessidades da maioria.

Está servindo para proporcionar privilégios aberrantes e luxos ultrajantes a uma pequena minoria, à custa da miséria de uns e da vida mal vivida de outros (trabalham e estressam-se mais do que deveriam, realizam-se menos do que poderiam).

Qualquer dia aprenderemos a não levar a sério os papagaios do capitalismo. São os  delfins  da desumanidade.

E, o mais importante: aprenderemos que não precisamos do capitalismo e passaríamos muito melhor sem ele.

domingo, 4 de dezembro de 2011

SÓCRATES ERA MAIOR DO QUE O FUTEBOL

Muhammad Ali esteve no Brasil quando assumia conscientemente o papel de símbolo da luta dos negros contra o racismo e Pelé, um gênio do futebol e um zero à esquerda em preocupações sociais.

Um repórter perguntou ao grande  Ali o que achava de Pelé. Com seu brilhantismo habitual, ele respondeu algo assim (não encontrei a frase exata): "Se alguém é um esportista extraordinário, isto já basta. Mas, se além disto, ele também levanta as bandeiras de sua gente e trava o bom combate, aí sim ele é completo".

Sócrates era completo.

Parafraseando o que Foreman disse sobre o próprio Ali, talvez Sócrates não tenha sido o maior jogador brasileiro de todos os tempos, mas, sem dúvida, foi o melhor cidadão brasileiro que já atuou no futebol profissional.

A ponto de, quando os melhores cidadãos brasileiros saíram às ruas para recuperar o direito de elegerem o presidente da República, ele se ter comprometido com a multidão que lotava o Vale do Anhangabaú (SP) a recusar a proposta estratosférica da Fiorentina e permanecer no País para ajudar a reconstruí-lo, caso fosse aprovada a emenda das diretas-já.

Perdemos um grande companheiro, um irmão de fé. Foi doído demais.

sábado, 3 de dezembro de 2011

ARQUIVOS SECRETOS OBTIDOS PELA "ÉPOCA": NEM TUDO É VERDADE

A revista Época está publicando uma série de reportagens sobre arquivos secretos da Marinha referentes à repressão nos anos de chumbo, que lhe foram entregues, microfilmados, numa "caixinha de papelão do tamanho de um livro". Eis como descreveu sua prenda:
"Escondidas por um militar anônimo, 2.326 páginas de documentos microfilmados daquele período foram preservadas intactas da destruição da memória ordenada pelos comandantes fardados. Os papéis copiados em minúsculos fotogramas fazem parte dos arquivos produzidos pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar), o serviço secreto da força naval. Ostentam as tarjas de 'secretos' e 'ultrassecretos', níveis máximos para a classificação dos segredos de Estado e considerados de segurança nacional. Obtido com exclusividade por Época, o material inédito possui grande importância histórica por manter intactos registros oficiais feitos pelos militares na época em que os fatos ocorreram".
A série começou com uma matéria de capa sobre Os infiltrados da ditadura, assinada por Lionel Rocha; na edição que chega às bancas neste sábado (3), o texto que aborda As ações da CIA no Brasil tem tripla autoria (ele, Eumano Silva e Leandro Loyolla).

On line, a revista publica inicialmente o começo da matéria, só liberando o restante do texto no dia em que sai a edição seguinte.

Colega de editora (foi também a Geração Editorial que lançou seu Operação Araguaia - os arquivos secretos da guerrilha, escrito a quatro mãos com Taís Morais), Eumano me pediu opinião sobre a série. Fiz-lhe esta avaliação:
"...os relatórios da repressão são uma parte da verdade, mas não toda a verdade. Dão pistas, mas não esgotam os assuntos. São peças de um imenso quebra-cabeças cuja montagem compete aos historiadores e à Comissão da Verdade.

O comezinho bom senso é suficiente para supormos que os autores dos relatórios evitaram estender-se sobre o papel infame que eles próprios desempenharam e também que fantasiaram um pouco os registros, para valorizarem-se aos olhos de seus superiores".
JUAREZ GUIMARÃES DE BRITO 
ASSUMIU CONSCIENTEMENTE O RISCO DE 
TENTAR SALVAR UM COMPANHEIRO

Isto se evidencia, p. ex, na forma como a revista relata o cerco e morte do grande companheiro Juarez Guimarães de Brito:
"A infiltração de Luciano [codinome de Manoel Antonio Mendes Rodrigues, noutro parágrafo apresentado 'como um agente remunerado que teve conexões com assaltos a banco e contatos em várias organizações da luta armada, como FLN, VPR e MR-8] resultou também na espionagem contra um dos mais importantes dirigentes da VPR, Juarez Guimarães de Brito. Juarez entrara em 1968 para o Comando de Libertação Nacional (Colina), organização a que pertenceu a presidente Dilma Rousseff. Em julho de 1969, integrava a VAR-Palmares, organização oriunda da fusão entre Colina e VPR. Foi Juarez quem comandou no Rio de Janeiro o assalto ao cofre de Ana Capriglione, amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Trata-se do assalto mais bem-sucedido realizado por um grupo de esquerda durante a ditadura. Ele rendeu US$ 2,6 milhões aos assaltantes.

No dia 13 de abril de 1970, Luciano relatou aos chefes do Cenimar que estivera com Juarez num encontro com Maria Nazareth. Ele telefonou outra vez ao Cenimar no dia 16, para informar que Juarez tinha um encontro no dia 18 com outro militante da VPR, Wellington Moreira Diniz, na Rua Jardim Botânico, numa esquina com a rua que 'tem a seta indicando Ipanema'".
Provavelmente, foi esta a versão que o oficial controlador do tal Luciano passou ao alto comando, para acumular mais alguns pontinhos --ignóbeis!-- na sua carreira.

A verdade é bem diferente, conforme esclareci na mensagem que enviei ao Eumano:

 "A sequência real é a seguinte:
  • Wellington Moreira Diniz, braço-direito do Juarez desde os tempos do Colina, teve de afastar-se da militância ativa por causa de problemas cardíacos;
  • sua única tarefa ficou sendo a de dar instrução militar a pequenos grupos de esquerda que estavam se formando na época;
  • mas, alguém desses grupos foi preso e o entregou;
  • já estava preso em 11/04/1970, um sábado, dia de seu ponto semanal com a VPR (para saber as novidades, receber instruções e recursos para seu sustento);
Raridade: Juarez na formatura do ginásio, em 1963. É o
1º da fileira de cima, da esq. p/ a dir., no centro da foto
  • no dia 13/04/1970, quando eu me encontrei com os dirigentes nacionais Ladislau Dowbor e Maria do Carmo Britto numa casa de chá da zona Sul do RJ, conversamos longamente sobre a apreensão causada pelo fato de o Wellington não ter comparecido nem ao  ponto  nem à alternativa (um novo ponto, marcado para algumas horas depois);
  • como todos os comandantes estavam de partida para uma reunião convocada pelo Carlos Lamarca, tentei insistentemente convencê-los a abortarem a reunião, para que todos estivessem a postos no caso de o Welllington ter realmente sido preso;
  • mas, foi mantida a reunião e uma informação que o Wellington abriu depois de resistir bravamente durante quatro dias iniciou a onda de  quedas  que acabou me alcançando;
  • sem terem conhecimento das prisões, o Juarez e a Maria do Carmo, já de volta no sábado seguinte (18/04/1970), resolveram ver se o Wellington comparecia na segunda alternativa para o caso de o Wellington ficar descontatado (mesmo local, mesma hora, uma semana depois);
  • não era o Juarez quem habitualmente cobria o ponto semanal com o Wellington, só tendo ido no dia 18 porque o companheiro não aparecera no dia 11 e ele estava preocupado (provavelmente, já acalentava a esperança de resgatá-lo com uma ação desesperada);
  • o casal percebeu que o Wellington estava preso e servindo de isca, mas o Juarez improvisou o plano temerário – enviar-lhe, por meio de um menino de rua, um pacote de frutas com um revólver por baixo, supondo que ele o pudesse utilizar para escapar dos agentes e correr até o carro deles;
  • com as pernas engessadas por um tipo de tala sob a calça, ele não poderia correr, então, ao ver a arma, não a pegou;
  • os agentes perceberam a manobra e conseguiram cercar o carro do Juarez, impedindo a fuga -- aí ele optou pelo suicídio, cumprindo sua parte no pacto de morte que havia firmado com a companheira.
Além do que fiquei sabendo na reunião com o Ladislau e a Maria do Carmo, minhas fontes foram uma conversa com o tenente coronel Ary Pereira de Carvalho, da Divisão de Infantaria, responsável pelo IPM da VPR, que me contou o ocorrido em 18/04/1970 sob a ótica da repressão; e os papos com o próprio Wellington, meu companheiro de infortúnio no cárcere da PE da Vila Militar (apesar das brutais torturas, seu coração resistiu e ele tomava fortes calmantes na prisão)".
O PROFESSOR DA GUERRILHA:
UM EXEMPLO DE IDEALISTA QUE ENDURECEU-SE 
SEM JAMAIS PERDER A TERNURA

É de supor-se que haja outras informações igualmente maquiladas nos tais microfilmes, o que não diminui o mérito da Época nem  a importância do seu trabalho jornalístico. Apenas, comprova que tudo isso deve ser relativizado e não tido como verdade absoluta.

Não sei se a revista publicará meu esclarecimento, até porque o Eumano não decide sozinho.

Eu gostaria muito que o fizesse, por respeito à memória de um dos melhores resistentes tombados na luta contra o arbítrio.

Juarez merece ser lembrado como quem foi: o cordial professor que  endureceu-se sem jamais perder a ternura, a ponto de ter colocado a salvação do discípulo estimado acima do sentimento de autopreservação e da enorme importância que ele próprio, Juarez, tinha para o movimento.

E, quando seu intento fracassou, pagou com a vida, sem hesitar. Não quis correr o risco de, sob tortura, comprometer outros companheiros ou prejudicar a causa.

Mas, conhecendo-o como conheci, eu apostaria todas as minhas fichas em que tal temor era infundado.