segunda-feira, 5 de março de 2012

O que Causa uma Crise Econômica?

Em primeiríssimo lugar, crise não é uma “doença” do capitalismo, mas sim um elemento constitutivo, uma coisa intrínseca ao mesmo.

Ao seja: Não existe capitalismo sem crises. Isso é bê-a-bá. Ponto.

Mas o que causa crises no capitalismo? São ciclos. E a explicação é: A Queda Tendencial da Taxa de Lucros.

(Atenção para a explicação prosaica e resumida de economia. Calma que chegarei a crise mais adiante, essa explicação é quase um parêntese).

Um capitalista obtém seu lucro após um ciclo de produção. Trabalhadores operam máquinas e transforma matéria-prima em mercadoria. O capital se divide em constante e variável. O capital constante é o investimento em máquinas e matéria-prima. O capital variável é o gasto com salários. Mais-valia é a relação entre o gasto em salário (capital variável) e o total do valor produzido.

O lucro do capitalista vem da mais-valia – ou do trabalho não pago – que é a diferença entre o que foi produzido e o que foi pago aos trabalhadores, e que é embolsado pela burguesia.

Já Taxa de Lucros é a relação entre mais-valia e o capital total (constante e variável) investido na produção.

Para enfrentar a concorrência o capitalista aumenta os investimentos em capital constante (máquinas e matérias-primas) para produzir mais em menos tempo, barateando os custos.

Isso tende a aumentar a massa de lucros da empresa, mas amplia a proporção do capital constante sobre o capital variável.
 
Com isso, a taxa de lucros tende a cair a médio prazo (pois é apenas o capital variável que produz mais-valia).

Já sabemos a grosso modo como funciona a produção e o lucro.

Onde entra a crise nisso?

Ora, já disse. Do declínio da taxa de lucros. Ao passo que a produção vai aumentando, os lucros vão diminuindo, até que a indústria quebra. É essa a causa das famosas «crises de superprodução».

O que fazer para reverter essa tendência? Ou melhor, como se sai de uma crise?

Dois são os mecanismos principais: Aumento da mais-valia (flexibilização de direitos trabalhistas, precarização do trabalho, bem como a busca de mão-de-obra barata em outros países, como incentivo à imigração de pobres do 3º mundo, etc), e outra não menos importante - A ampliação de mercados (consumidores).

Um ciclo desse, uma parábola – o ascenso e descenso da taxa de lucros – dura décadas. (Porém, como a história nos mostrou, pode ser atenuado ou agravado por decisões políticas).

Eis um esboço de ciclos econômicos em perspectiva histórica, onde em vermelho temos a taxa de lucros:

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Em resumo: O capitalismo tem uma natureza cíclica de permanente crescimento-auge-crise-depressão. E é isso que observamos desde a primeira crise na 1ª metade do século XVIII. Pois bem, agora já sabemos como funciona um ciclo de produção; de onde vem o lucro; o que causa a queda da taxa de lucros; e o que causa uma crise.

A crise de 29 foi a primeira grande crise do século XX. O início da curva descendente da onda longa que acarretaria na crise, coincidiu com a fase final da Primeira Guerra Mundial(que foi, claro, uma guerra inter-imperialista por disputa de mercados e matérias primas), onde o eixo econômico mundial se deslocaria definitivamente para os EUA.

A diminuição da taxa de lucros (vide gráfico) acarretou numa crise de superprodução, que levou ao crash da bolsa de NY, como já sabemos.
Após a depressão, um longo período de estagnação mundial estaria a espera, se não fosse por um detalhe – A eclosão da 2ª Guerra Mundial que destruiria quase todo continente europeu. A reconstrução da Europa e o Plano Marshall viriam dar o gás que faltava ao capitalismo.

Foi no pós-guerra que tivemos o maior boom econômico da história. Esse ascendente econômico durou por volta de 25 anos. Na virada para os anos 70 a economia já mostrava claros sinais de estagnação - a taxa de lucros estava em tendência de queda (na verdade os primeiros sinais já ficaram evidentes em meados da década de 60).
Um dos meios usados na época para atenuar a crise foi o estímulo do consumo mediante a expansões do capital virtual ou fictício (títulos da dívida, ações, derivativos, etc) e do crédito.
Isso ajudou a contornar os obstáculos à acumulação capitalista nesses anos 70.

Mas outro fator foi ainda mais importante. A abertura econômica dos países do antigo bloco socialista. A começar pela China, que iniciou sua abertura em 1979, e viria a se aprofundar no Leste Europeu nos anos 80, com a Perestroika na então URSS e dos demais países da antiga Cortina de Ferro.

O capitalismo matou 2 coelhos com uma só cajadada. Ampliação colossal expansão dos mercados consumidores, e a obtenção de mão de obra baratíssima, no caso da China.

Mas o auge viria mesmo no final anos 90, após a total abertura econômica dos países do Leste, e a onda neo-liberal e do capitalismo financeiro irresponsável.

Após qualquer auge vem uma fase descendente.

Na segunda metade do ano 2000 o mundo dá dava sinais de estagnação. E quando finalmente veio a crise de 2001-2002, o imperialismo usou a boa e velha receita que fora usada nos anos 70 (lembram?): estímulos à expansão do capital fictício (títulos, ações, derivativos) e ao crédito (para pessoas físicas e jurídicas), baixando a taxa de juros a níveis recordes.

Essas manobras – aliado à «Política Bush» de gastos violentos com o setor bélico que provocou um crescimento fantástico da indústria militar e dos setores ligados ao provimento das Forças Armadas americanas – conseguiram estimular o consumo e recuperar a taxa de lucros, ainda que por um período curto, de 6 ou 7 anos.

Algumas conclusões imediatas sobre a crise atual:

I – Essa crise, na verdade, nada mais é que a continuação da crise de 2001-2002, que por sua vez é decorrente do ciclo econômico que é intrínseco ao sistema capitalista.

II – A farra do crédito fácil a juros baixíssimos aliado a gastos militares, do Governo Bush, não foram as causas da atual crise. Apenas empurraram-na com a barriga para frente.

Autor: Gilberto Mucio

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