quarta-feira, 7 de março de 2012

Teoria contra prática?


"Homens práticos, que se julgam imunes a quaisquer influencias intelectuais, são geralmente escravos de um economista morto há muitos séculos" (John Maynard Keynes)

Muita gente na esquerda afirma, com razão, que a teoria pura não é eficaz para a transformação da sociedade em que vivemos. Lênin já dizia: "o marxismo (teórico) é um guia para a ação". Essa frase é o complemento daquela outra, de Marx: "Os filósofos sempre interpretaram o mundo. O que importa é transformá-lo". Muitas pessoas que conheci, no entanto, citam estas frases ignorando o que ela diz, e a interpretam como um pretexto para jamais estudar e discutir a teoria. Concluem que não se deve nunca estudar a teoria, ou seja, não se deve refletir ou discutir coisa alguma, mas apenas adotar uma atitude ultra-militante.


Às vezes me incomoda esta retórica "praticista", ou melhor, pragmatista, embora eu concorde com a afirmação de que a ideia de Lênin é um bom antídoto contra o marxismo escolasticismo. Mais de uma vez já vi um "militonto" (destes que se dizem marxistas por terem lido somente o Manifesto comunista e usam camisa de grife famosa com foto do Chê Guevara) xingar alguém mais instruído em termos teóricos, de "teórico que só sabe ler", "que se esconde atrás de livros". Já usaram essa falácia contra mim também (em uma discussão prática, envolvendo uma questão jurídica sobre a constituição brasileira!). Quer dizer, você está lá em uma assembléia, ou mesmo em uma rede social, e uma pessoa que estava ao seu lado em uma ocupação, panfletagem ou marcha diz que você não faz nada, que não sabe de nada, e que por isso não têm o direito de questioná-lo! Que "se esconde atrás de livros"! Essa frase é muito engraçada. Bem, para mim quem diz algo do tipo assina um atestado de oportunismo e baixeza sem limites. Com minha formação acadêmica em Ciências Sociais, é óbvio que eu estudei muita teoria social, política e cultural e continuo estudando. Nunca me achei melhor que ninguém por isso. Mas um sujeito vir me dizer que ele é melhor que eu por ser ignorante naquilo em que eu me especializei, tenham paciência! Seria o mesmo que eu agredir verbalmente um engenheiro, dizendo que ele "se esconde atrás de máquinas", ou de um camponês, dizendo que ele "se esconde atrás da enxada"! No fundo, quem ataca teorias, ataca apenas as teorias dos outros, porque já encara as suas próprias teorias como dogmas religiosos inquestionáveis.

Os filósofos sempre interpretaram o mundo. É preciso transformá-lo. Isso significa que não é problema, não há mal algum em interpretar o mundo, o mal é não lutar para transformá-lo. Mas o conhecimento possui valor intrínseco, não há necessidade de justificar a busca do saber. Mais importante: para transformar esse mundo social, é preciso interpretá-lo, conhecê-lo, isto é, construir um discurso teórico-analítico sobre esta mesma realidade. Se não for um conhecimento válido sobre a realidade, a teoria não serve como "guia para a ação". Se este não fosse o sentido da 11a. tese sobre Feuerbach, Karl Marx jamais teria se dado ao trabalho de escrever "O capital", fazendo uma profunda análise da estrutura do sistema capitalista, chegando mesmo a deixar o esboço de uma história da teoria econômica. Nem Lênin teria "perdido tempo" escrevendo Imperialismo, etapa superior do capitalismo, Estado e revolução,, Materialismo e empiriocriticismo,  nem Gramsci gastaria os últimos anos da sua vida escrevendo seus Cadernos do cárcere, nem teria Chê Guevara estudado as obras de Marx, Engels e Mariátegui, etc., etc. Reflexão e debate teórico sobre a realidade não significa "fechar-se no mundinho acadêmico". Pode e deve ir além. Eu sei que a teoria pura corre o risco de tornar-se "Torre de Marfim" e distância entre teoria e prática, como no finalzinho da vida de Adorno (sem prejuízo para a importância da obra teórica adorniana). Mas não desqualifiquemos a teoria, pois o discurso antiteórico é a ponta de lança do oportunismo e da Realpolitik. Lênin chama a teoria de "guia para a ação" porque, sem ela, a ação é cega, da mesma forma que a teoria pura não é diretamente eficaz para a mudança social.

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