quinta-feira, 10 de maio de 2012



O significado da estrutura do face

Que o face e o Orkut são criações de duas empresas capitalistas, disso ninguém duvida. Mas há uma diferença fundamental entre as duas redes. No orkut, além das comunas (grupos de estudo do face), há os tópicos, o que em seu concorrente não há. E cada vez mais o orkut fica estagnado. Mesmo aqueles que se veem como de esquerda estão migrando para o Face. Um dos motivos foi o sucesso do filme encomendado "A rede social'. Se o fato dos esquerdistas serem influenciados pela mídia já é um problema, existe um outro um tando mais problemático. O que o face revela de sua extrema sincronia com a sociedade capitalista é a descartabilidade. Um usuário posta uma ideia. O outro responde. Outro posa mais alguma coisa. Os post e suas respostas não são deletados, mas acumulam-se, continuam em registro. E acabam quase invisíveis.
Pode-se dizer que algo semelhante ocorre no Orkut, que os tópicos acumulam-se, o que resulta ter mais de um tópico para o mesmo assunto. Mas no Face, parece que isso foi pensado para ser realmente assim. Proliferam-se post para terem uma vida curta, o minuto de fama. No Orkut, a estrutura de post, se organizada, manteria o acesso ao registro, o que é quase impossível no Face.
Se a superestrutura reflete mesmo a estrutura, nesse aspecto o face está dando um banho no Orkut. O face está em extrema sincronia com a estrutura capitalista da descartabilidade. Algo deve ser esquecido para que se tenha um novo. Um post deve ficar a quinhentas páginas para que se tenha o novo. Nada é construído, nada é desenvolvido, pois os post misturam-se. Na sequência da resposta da resposta, a probabilidade que a questão original perca-se é imensa.
E se os postadores de esquerda também estão migrando, afinal, o face é atualmente uma importante forma de comunicação, estão também colocando a possibilidade do registro e da construção de um pensamento de esquerda na descartabilidade, pois estão transformando suas ideias em algo apenas momentâneo.
Aparentemente, os esquerdistas do face cumprem um papel social que é ocupar a mídia capitalista para usá-la em favor próprio. É preciso ir a onde o povo está, já dizia Milton Nascimento. Isso seria correto se as comunidades ou os “grupos de estudo” criado nas redes sociais não fossem endógenos. E ai a coisa torna-se um debate dentro da própria auto denominada esquerda: stalinistas, trotskistas e anarquistas realizam um verdadeiro diálogo surdo. Todos falam mas poucos escutam.
Mas esse não é o problema. O problema maior é que esse modismo, essa migração de uma rede social para outra revela também a preocupação desta dita esquerda em obter informação. Acontece que essa informação, que se perde um acumular desordenado de post, está muito longe de tornar-se formação. Parece que é um postar ou informar, ou formar-se, pelo ato em si.
A formação, entendida como um acumulo de conhecimento que permite uma leitura sistemática e coerente do mundo externo à mente, do mundo da chamada realidade concreta, pode provir da informação. A informação é a captação de um momento dessa realidade, em si, não corresponde a uma leitura sistemática, não percebe que o fragmento está relacionado com o sistema. A informação, obtida de forma sistemática e disciplinada, tem o potencial de tornar-se formação.
E uma grande dádiva, advinda da internet, é a possibilidade de obter informação a um custo reduzido. E, de forma sistemática, a internet pode ser um caminho para a formação, mesmo que uma formação não sistemática.
Entretanto, na medida que essa esquerda está mais disposta a seguir uma moda e aderir a descartabilidade da informação, está recusando a formação. Já foi dito que a esquerda brasileira é festeira, já foi dito que aquela esquerda dos anos 60 era uma esquerda inteligente. E o que dizer da esquerda internauta? É uma esquerda que comunga com a direita, não em ação, mas em sentido da ação...

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