sábado, 30 de março de 2013

Quem realmente foi Hugo Chávez? (Parte I)


Hugo Rafael Chávez Frías (1954 – 2013)



Muito se discute sobre o chefe de estado venezuelano, mas pouco se conhece a fundo (isso no contexto brasileiro) sobre esta figura recém falecida. Nota-se claramente que 98% dos que abordam temas entre os formadores de opinião conheciam o ser humano Hugo, e o processo de mudanças iniciado sob seu governo na Venezuela, auto intitulado “Revolução Bolivariana”.
Por isso, é necessária uma análise materialista sobre esta figura já histórica (afinal, ele se declarava socialista, embora não fosse um marxista no sentido tradicional), este pequeno ensaio é uma tentativa de ser uma pequena introdução, e esclarecimento de questões básicas.

I: Origens

         Hugo nasceu em Sabaneta, província de Barinas, região dos llanos (pântano em espanhol), aonde atuou um grande revolucionário muito respeitado na história venezuelana chamado Ezequiel Zamora, cujo seu bisavô de nome Pedro Pérez Delgado (apelidado Maisanta) lutou como soldado no exército formado por ele, pela defesa dos camponeses pobres.
         Sabaneta até os dias de hoje ainda é uma cidade muito pequena, no final da década de 1950 então, era totalmente desprovida de quaisquer recursos básicos para o desenvolvimento econômico. Como seus pais eram professores em uma comunidade rural ainda menor que Sabaneta e que ficava a quatro horas de distância por estrada de terra (obviamente ficava intransitável nos dias chuvosos, o que é freqüente nesta região), Hugo foi criado por sua avó Rosainés junto com seu irmão Adán (posteriormente governador de estado após Hugo assumir o governo, e quem trouxe ao irmão livros de esquerda futuramente), aonde o pequeno garoto teve uma infância de muito trabalho e privações (plantou, colheu, e vendeu doces e frutas ainda antes dos 10 anos), mas sempre declarou ter sido feliz nela. Sua avó foi uma das maiores influências em sua personalidade.
         Conforme Jones (fonte a ser citada no final do texto), o seu primeiro objetivo de vida era se tornar jogador de beisebol, o principal esporte venezuelano. Para tentar realizar seu sonho, e também ampliar seus horizontes, ingressou no exército de seu país, pois esta era a única instituição que oferecia a prática gratuita de esporte naquele momento (década de 1970).




II: Formação Político/Ideológica


         Dentro do exército, Hugo teve uma série de experiências que moldarem seu caráter ideológico heterogênico (cristão com viés de esquerda revolucionária, defensor do propósito de unificação latino americana de Simon Bolívar, simpatizante do marxismo mantendo parte da estrutura capitalista de estado, etc.), como a oportunidade de estudar mais profundamente a obra de Simon Bolivár, o patrono e grande herói nacional venezuelano, a oportunidade de visitar in loco o governo nacionalistas/populares de Juan Velasco Alvarado no Peru e Omar Torrijos (também militares); oportunidade de conhecer todo o território nacional, e ver a desigualdade social acachapante ao comparar a rica região da Zulia (cidade de Maracaibo), e bairros chiques de Caracas com o restante do país, e entrou em contato com guerrilheiros do PCV (Partido Comunista de Venezuela), especialmente com Douglas Bravo, teórico do partido e da guerrilha.
         Este processo levou a formação nos anos 80 de um pequeno grupo revolucionário inspirado em Bolívar chamado EBR-200 (Exército Bolivariano Revolucionário, os 2000 são por conta do bicentenário de Simon Bolívar, nascido em 1782, e a cédula foi formada em 1982), aonde junto com um grupo de colaboradores formaram grupos de análise sobre a realidade venezuelana, e a conjuntura internacional.



III: Entrada na vida política de forma pública

         Após uma pequena mudança de nome para MBR-200 (o “exército” foi alterado para “movimento”, para abranger membros civis), o grupo aumentou cada vez mais, chegando ao ponto de interferir de forma decisiva na política venezuelana, após uma tentativa de derrubar o presidente da república Carlos Andrés Perez em 1992, que estava totalmente desacreditado com a população por conta de anos de corrupção e gastos excessivos em seus dois governos (já tinha sido presidente nos anos 1970), e a gota d’água foi uma repressão massiva de pessoas pobres que protestavam contra um mega arrocho salarial decretado pelo então mandatário da nação, o famigerado Caracazo.
         A ação, muito conhecida no resto do mundo como Golpe de 1992, porém na própria Venezuela sempre foi chamada de La Rebelión de los Angeles rendeu a Hugo uma prisão de alguns anos em Caracas, muito apoio popular (é célebre uma declaração na imprensa, aonde justifica a ação, que gerou grande comoção), e logo após sair da mesma passou a empreender uma campanha para alcançar a presidência da república aonde além de visitar todos os estados venezuelanos visitou Cuba, aonde conheceu Fidel Castro pessoalmente.  Neste momento, o MBR-200 se organiza como partido político de denominação Quinta República (MVR).
         Este desenvolvimento leva Hugo a se candidatar nas eleições presidenciais, das quais sai vitorioso, e jura sobre a constituição venezuelana declarando que “iria modificá-la o quanto antes, através da abertura de uma assembléia constituinte, pois ela estava moribunda e tinha horror do povo”*

         A análise continuará futuramente, já considerando o governo Chávez.

*Citação aproximada, assim como demais fontes, por conta do livro que me baseei não se encontrar em meu poder, e só o encontrei à venda em Ebook.


FONTES: JONES, Bart. Hugo Chávez: Da Origem Simples ao Ideário da Revolução Permanente, 2008, Editora Novo Conceito.

O Vídeo do discurso de Chávez em 1992: http://www.youtube.com/watch?v=VBUo-pYeVfQ
        


terça-feira, 26 de março de 2013

VEREADORES PAULISTANOS PODEM HOMENAGEAR A REPRESSÃO DA DITADURA

"Bandido bom é bandido morto", diz Telhada,
que já esteve envolvido em várias mortes.
O vereador tucano Paulo Telhada propôs a concessão da Salva de Prata, uma das comendas mais importantes da capital paulista, ao batalhão Tobias de Aguiar, que existe há mais de um século e, a partir dos anos de chumbo, passou a ser mais conhecido como Rota, pois suas rondas ostensivas acabaram definindo-lhe a identidade e a imagem: trata-se da unidade mais truculenta da Polícia Militar paulista.

A Rota tem sido, nas últimas décadas, acusada de um sem-número de execuções covardes de marginais já subjugados e que não estavam resistindo à prisão.

Sua chacina mais famosa motivou o jornalista Caco Barcellos a passar um pente-fino em episódios anteriores, daí concluindo que os assassinatos a sangue-frio constituíam norma (jamais uma exceção!), só não atraindo o mesmo interesse porque as vítimas eram coitadezas dos bairros pobres. Merecidamente, Rota 66 - a história da polícia que mata ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro-reportagem de 1993.

E foi sempre a menina dos olhos do ex-governador Paulo Maluf que, nas campanhas eleitorais, prometia "botar a Rota nas ruas" para intimidar os criminosos com a  lei do cão --ou seja, igualando-se a eles.

Quanto ao coronel da reserva Paulo Telhada, que comandou a Rota entre 2009 e 2012, é um símbolo dos excessos por ela cometidos, tanto que tinha como bordão "bandido bom é bandido morto". Sua trajetória na PM, segundo a Carta Capital (vide aqui), foi marcada "pelas mortes que acumulava em ações policiais, por transferências recordes de batalhões e até prisões por descumprimento do regulamento interno". Em 1992, p. ex., foi afastado do policiamento da Rota por desentendimentos com superiores da Polícia.

Num artigo candente (vide aqui), o justamente indignado Carlos Lungarzo põe o dedo na ferida:
"...a Rota é também um símbolo, como o é o Bope no Rio, daquele setor policial que é uma verdadeira máquina de extermínio e que serve às políticas das elites brasileiras de reduzir à sua mínima expressão aqueles setores que, exatamente nos mesmos termos que o fascismo utilizava em 1938, elas acham que não têm direito de existir.

Agora, uma homenagem à sua colaboração com a ditadura e com o extermínio de setores que pretendiam voltar à democracia, é um absurdo! É uma grave provocação!".
SUSTENTÁCULOS DE UMA DITADURA BESTIAL
 
Este é, sem dúvida, o aspecto mais importante a ser considerado: o destaque que Telhada dá, no seu projeto, à participação da Rota "no combate à guerrilha urbana que atormentava o povo paulista".

Copia na íntegra trechos do tópico A História dos boinas pretas (ver aqui), que o portal do governo paulista mantém no ar 28 anos depois de o Brasil ter saído das trevas, despachando a ditadura militar para o local a que pertence: a lixeira da História, na qual hoje não passa de sórdida lembrança, tanto quanto o nazismo alemão, o fascismo italiano, o franquismo e outras abominações.

Como Telhada andou escrevendo um livro sobre a Rota, é provável que seja ele próprio o autor das pessimamente traçadas linhas que enaltecem o terrorismo de Estado no portal do Geraldo Alckmin. Lutei contra tal ignomínia de 2008 até 2011 (vide aqui), até que, sob vara da ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário, o governador ordenou a retirada, pelo menos, do trecho em que a Rota parabenizava a si própria por ter ajudado as Forças Armadas a darem uma quartelada contra o governo legítimo do presidente João Goulart (vide aqui).

A tarefa ficou pela metade e o resultado aí está: novamente teremos de nos empenhar para que o direito de resistência à tirania seja tão respeitado no Brasil quanto em todo o mundo civilizado. E para que as loas ao arbítrio ditatorial recebam aqui o mesmo tratamento que recebem, p. ex., nos países europeus, onde elogiar o Holocausto é crime punível com prisão (na Suécia, aliás, político que faça propaganda do nazismo pode ser alvo imediato de impeachment, como bem lembrou o Lungarzo).

Inacreditavelmente, o projeto de Telhada foi aprovado na semana passada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal; mas, precisa passar por duas outras comissões antes da votação em plenário.

Ou seja, os vereadores paulistanos ainda têm três chances para evitar um desgaste equivalente ao da Câmara Federal no episódio Feliciano.

E nós podemos esclarecê-los sobre a história recente deste país, a qual, lamentavelmente, parecem ignorar.

Aliás, há um papel a ser cumprido, neste trabalho didático, pela Comissão da Verdade e pelos defensores dos Direitos Humanos em geral. Mãos à obra, pois!

É o mínimo que a cidadania pode fazer pelos resistentes massacrados numa luta tão desigual e travada de forma tão hedionda que só mesmo desinformados ou indignos podem se orgulhar do vergonhoso  papel que nela desempenharam, de sustentáculos de uma ditadura bestial.
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quinta-feira, 14 de março de 2013

O papa Francisco herdou as sandálias do PESCADOR... ou do PECADOR?

Este foi conivente com a ditadura argentina...
Radicado há décadas no Brasil, Carlos Lungarzo, incansável defensor dos direitos humanos, é argentino de nascimento e conhecedor profundo da trajetória do jesuíta Jorge Bergoglio, agora papa Francisco, outro sumo pontífice conservador de uma Igreja que, qual avestruz, enterra cada vez mais a cabeça na areia para alhear-se dos desafios da atualidade.

Os segredos do santo padre (clique p/ abrir) é um artigo obrigatório. Nele, Lungarzo traça o perfil de um religioso que, por identificação ideológica com a ditadura argentina, oportunismo ou pusilaminidade, recusou ajuda a um membro da sua Ordem, permitindo que ele caísse nas garras dos esquadrões da morte militares; e não moveu uma palha para encontrar uma criança recém-nascida sequestrada pela repressão, indiferente às súplicas da família.

O que ele tem em comum com Pedro é já haver negado Cristo... e muito mais do que três vezes!

...e este, com o nazismo.
O paralelo mais  apropriado, contudo, é com o papa Pio XII, aquele que ficou em cima do muro enquanto grassava a barbárie nazista.

Destaco os trechos principais:

"A Argentina voltou à normalidade democrática em 1983 quando o então padre Bergoglio estava com 47 anos. Nessa época, o atual papa era reitor do (...) maior seminário de formação de sacerdotes da Argentina (...), após ter sido, entre 1973 e 1979, o principal chefe (...) da poderosa e influente ordem dos jesuítas...

Em 1983, Jorge Bergoglio, uma figura austera, silenciosa, alheia a chamar a atenção, não tinha nenhuma influ'ncia política evidente, mas acumulava muita influência invisível. Ele utilizou essa influência para tentar mostrar um rosto 'moderno' da Igreja, modificando a imagem desta como cúmplice qualificada e ativa dos genocídios e torturas generalizadas, que foram comuns na Argentina...

Como é bem conhecido, a Igreja Católica apoiou intensa e devotadamente os crimes da ditadura, não apenas encobrindo ou justificando-os, mas também dando apoio psicológico e propagandístico, colocando a seu serviço seu aparato internacional (incluída a máfia italiana e o grupo P2), abençoando as máquinas de choque e os instrumentos usados para mutilação, e até, em vários casos, aplicando tortura com suas próprias mãos.

Há pelo menos 40 livros em espanhol e pelo menos 15 em inglês, dedicados de maneira total ou parcial à cumplicidade da Igreja Católica com os crimes de Estado na Argentina nos anos 1976-1983, e milhares de páginas de Internet.

Como em muitos outros países, uma minoria de padres apoiou a causa dos direitos humanos e teve certa militância no que foi chamado 'Teologia da Libertação'.

Dois deles foram os jesuítas Orlando Dorio e Francisco Jalic que propagavam uma visão social do cristianismo em favelas e bairros populares. Estes padres foram capturados pelos esquadrões da morte dos militares e submetidos a tortura, mas conseguiram sobreviver. Enquanto Jalic se fechou num mosteiro alemão e nunca mais falou de seu passado (e possivelmente, nunca voltou a Argentina), Dorio acusou explicitamente a Bergoglio, que era a máxima autoridade de jesuítas, de ter negado proteção e haver permitido que ele fosse capturado.

Bergoglio usou por duas vezes os privilégios de não acatar as decisões da justiça, privilégio que a Argentina concede aos bispos, que têm um fórum privilegiado equivalente ao dos deputados, senadores e presidentes. Em função disso, recusou dar depoimento aos tribunais que julgaram os crimes contra a humanidade na época da ditadura.

Bergoglio aceitou, porém, comparecer a uma terceira intimação, quando a pressão dos milhares de vítimas se tornou muito intensa.

Segundo a advogada Myriam Bregman, que trabalha em direitos humanos, as afirmações de Bergoglio, quando aceitou ir aos tribunais, mostram que ele e outros padres eram coniventes com os atos praticados pela ditadura. Ele, porém, não foi indiciado, também com base na 'falta' de provas.

Em 1977, a família De la Cuadra (...) teve sequestrados cinco de seus membros, dos quais apenas um reapareceu muito depois.

O padre Bergoglio se recusou a indagar onde eles estavam e até a ajudar a procurar uma criança recém nascida, filha de uma das mulheres desaparecidas.

Em algumas ocasiões, o Santo Padre não pôde refutar que a ditadura argentina tinha cometido numerosas atrocidades, mas argumentou que isso foi uma resposta provocada pela esquerda, que, segundo ele, também teria usado o terror. Este infame argumento, como todos sabem, foi fortemente repudiado em todos os países que tiveram ditaduras recentemente.

Durante o governo de Néstor Kirchner e, após, o de sua esposa, Cristina Fernández, o atual papa, mantendo seu estilo 'sutil' aproveitou para criticar muitas vezes o governo (...), acusando-o de ditatorial, de gerar o caos, de defender pessoas de vida sexual 'abominável', etc.

Com seu estilo aparentemente moderado, Bergoglio teve certo sucesso onde outros padres, que pregaram abertamente a tortura e o genocídio dos ateus e marxistas, fracassaram. Com efeito, apesar de ser unanimemente repudiado pelos defensores de direitos humanos, inclusive os católicos, ele nunca foi processado, como aconteceu com o padre Wernich, e até conseguiu forjar uma máscara de tolerância".